iniciação às coisas graves
contemporâneas da infância
chove o sumiço pelo asfalto
imaginário, mito tão antigo
fotografia e gestos de fala nos móveis
conheci, por algum verbo? estima
mediação do mito
territórios da linha da mão
datilografia bastante muda, não posso
te dizer o que te ajude
(medida e plano de imagens
para ver a neve
imaginária)
(os avós, mediadores
do mito para qualquer
infante)
esta ética é insuficiente
as águas entram na língua afobada
como nomear esta desorganização do tempo,
história? histeria?
o nome próprio passivo de explorações descontínuas
pequena agressão, noite plena, nome próprio, simulação
sou bastarda nas coisas boas dos homens
o amparo é o mesmo abismo
a ficção faz o retorno do que difere
abre uma facção de ilegitimidades
por onde apenas respira o que segue
vivo podendo vida
apenas assim
fetiche de uma língua prestidigitadora
mangue bambo bisavôs renúncia cremação
as crianças continuam marchando rumo
ao acidente
pés em prumo, cabeça ereta, olhos no medo
a história espiralada, sombrias
bordas, vento e testemunha
de uma febre em segredo
inflamada
eternidade
é impossível ser sincera?
tenta
tenta mais uma vez
absolutamente
impossível
a sinceridade é um ponto desforme
impalpável, amputado
cheiro uma tangerina vermelha ao ponto
das desistências
toda ideia esbarra na sua própria simplicidade
não inocente
manteiga
mantejoula
subúrbio
barbitúricos
néctar
da página
boca oca
oca oca
onde morar
sal a pique
barro
rede
exclusões
e balanços
depois, me desculpe: cálamo
por toda parte o desperdício
da rima
das malemolentes fugas
afluentes
esta tarde altiva terça-feira qualquer outra
na palavra
um mal alvo, boneca de úlcera, lugar-comum
literatura
para nenhuma
literatura apenas nome extensivo
dormente, quase
tem gente posando para o retrato
(retrátil, diz)
apenas ligeiramente fresco
graça e bonança
bem edificadas
literatura
um urro
dentro das forcas
põe a língua cerrada para fora
o que te sobra até o infinito é um mundo compromisso branco
branco de pálido, diz
sim, opaco
chove sobre o termômetro da obra
a tangerina repousa sob a nuca
nunca
é o que importa
taça cintilante, adstringências, negócio
é importante notar a tentativa esgarçada
de sinceridade nesta hora
sem escrita
desculpe se este mais sincero te soa prenda fácil
estão ouvindo os risinhos? as coxias?
estarei bêbada em quaisquer segundos
pronta para o mergulho, imagem
pobre e frágil, em estado de exclusão
cadente obviedade
calo-me
e você também espera
esta pessoa que espera
o nome disso é cotidiano
tangerina amarela cadillac obsceno (não) vinho branco praça da república
coisas comuns
ao rés dos edifícios
e das pílulas políticas
dos meninos enjaulados
numa beleza já sem
idade
um coração picadinho
e arroz com alecrim
bastam
congratule-se de não estar assim como nós todos, esperando
sem esperança
ou de saber ou é claro achar que sabe
o que espera
sou uma sujeita romântica
não deixo nada
pela metade
partículas de pequeno peso a ondular até que a imagem se faça dança, neste pingo ou sopro de areia que estão no livro do contágio
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quarta-feira, novembro 27
sexta-feira, março 16
(...)
visto que sem qualquer destino
rotações, translações, cadentes extremos
o corpo desloca-se no imprevisível
criando configurações móveis
na palimpsia das páginas
nus-ensaios
os avessamentos
amuletos emulgentes
óleo de amêndoa e leite
para escrever
espaço
halo casto
na busca por camafeus & loas
retratos do anonimato nas
feiras de antiguidade
esparsa
segunda-feira, outubro 3
(achado nas bordas de um livro) (de poemas)
acordo na hora do fígado
mesmo haverá pouco o que fazer
esfregar com o vidro
d'água o ressecamento do sono
o vício da meia-luz
alastro água pelos pulmões
eu e você nos adiantamos a dizer a lua que ninguém
vê, aquela pedra de prata
urgente a rasgar o cansaço sob a cidade
desperta
a fome o apagamento
as falas entrecortadas
(um momento cristão)
você parte numa caravana voadora
eu estou na hora do fígado
enrodilhada como hera
este desígnio a borrão
deixar resmas, não seguir
desígnio em que horas, anteriores
se transviassem
em calidez intóxica
e não mais sozinha
a madrugada
e seus arrependimentos
mesmo haverá pouco o que fazer
esfregar com o vidro
d'água o ressecamento do sono
o vício da meia-luz
alastro água pelos pulmões
eu e você nos adiantamos a dizer a lua que ninguém
vê, aquela pedra de prata
urgente a rasgar o cansaço sob a cidade
desperta
a fome o apagamento
as falas entrecortadas
(um momento cristão)
você parte numa caravana voadora
eu estou na hora do fígado
enrodilhada como hera
este desígnio a borrão
deixar resmas, não seguir
desígnio em que horas, anteriores
se transviassem
em calidez intóxica
e não mais sozinha
a madrugada
e seus arrependimentos
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